Terça-feira, 20 de Março de 2012

Poemas de Rafael Camarasa de "O Sítio Justo" - tradução minha

 

 

 

O OESTE DISTANTE

 

Como um prospector do ouro peneiro lentamente os dias e somente de vez em quando encontro o metal precioso. Um brilho mínimo na areia que me reconcilia com o rio e, sem me conceder riquezas nem salvar da corrente, honra meus pés na água e em tanta terra removida.  

 

*

 

MEIA NOITE 

 

Mais um dia que se vai como uma cauda cortada de lagartixa que, fascinante e dolorosa, serpenteia no chão e, no seu agitamento por voltar, mais se afasta do corpo.  

 

*

 

AS NUVENS 

 

Até agora era um rumor. Algo que só acontecia aos outros. Um homem que apaga a luz e que, de imediato, tem medo do escuro. “É como na infância”, dizemos, mesmo sabendo que não é assim. E então temíamos o escuro. Hoje, além disso, a sua proximidade. Temerosos estendemos as mãos e nelas reconhecemos o trânsito: se fosse uma viagem, dir-se-ia que estamos a meio caminho. Debaixo das nuvens que pareciam distantes – como sempre, como de cada vez que o jardim se cobre de folhagem – hospedamos a esperança do vento. E a certeza de que quando forem varridas, desaparecerá o céu que ocultaram.

 

*

 

DO DIÁRIO DE UM SUPER-HERÓI 

 

Foi o meu primeiro erro e, por fim, o único que cometi em toda a minha vida. Depois de resgatar daquele edificio em chamas aquela mulher, escapou-me das mãos  e caiu sobre a multidão. Talvez esta afirmação defraude muitos dos meus seguidores, mas ainda que não tenha provocado a tragédia nem gozado com a dor alheia, no meio daquele erro, pela primeira e última vez, senti-me o homem perfeito que todos acreditavam que era.

 

*

 

SOLDADOS 

 

Um amigo ofereceu-me um capacete inglês da segunda guerra mundial que comprou muito deteriorado e restaurou para mim. Quando alguém vem a minha casa e ao vê-lo no meu escritório me questiona, sei que espera que eu fale da guerra, que evoque trincheiras e batalhas, o horror ou as façanhas do soldado cuja cabeça ocupou o seu interior. Em vez disso, eu lhes falo do meu amigo e do seu empenho em limpá-lo com óxido, por fazer desvanecer as impurezas do tempo e aplicar com precisão a pintura.   Eu o descrevo à mulher, que ali permanece cúmplice, e às suas filhas que jogam à apanhada à volta da secretária, ignorando que até o seu alvoroço é parte do fio de Ariana que liga esse capacete velho à meada da minha memória, convertendo-o num objecto diferente a que o visitante presta atenção. “E na frente de batalha? ”, todos insistem. “A quem pertenceu na guerra?”. Como se não soubessem eles que eu nunca lá estive.

 

*

 

CAVALLERS 

 

Em plena luz do dia a calma de uma rua é um parêntesis onde mora efémero o transeunte. Por isso, enquanto volta o caos e se instala a sua confusão, ela é o sol nos terraços, o reflexo nas sacadas, a serenidade que embebe o ar como chuva imperceptível. Um castelo de naipes ao sabor do menor tremor. Alguém que sabe que hoje terá algo de belo para te contar.

 

*

 

INSTINTO  

 

O meu animal não é diferente dos outros. Não entende causas nem razões. De leis físicas que explicam, por exemplo, o teu rebolar quando caminhas. Vê que as tuas ancas se movem e curioso gosta de ver se te afastas e te perdes feita pérola entre pedras. Agora deixa o novelo de vísceras, com o qual brincava no meu interior, e observa uma gota de chuva deslizando no vidro. Nem desconfia que há forças que o fazem seguir esse curso: ama a sua imprevisível constituição com o mesmo mistério com que a odiará. Uma noite destas pode deixar que faças com a sua pele uma bolsa. Contudo se lhe perguntares o motivo não saberia o que te rugir ou miar. Se pretende alguma coisa são os teus joelhos e o tacto dos teus dedos no seu dorso. E, como eu, lamber-te-á as feridas, ainda que não possa explicá-las.

 

*

 

NO ESCURO 

 

 

Quem não fechou os olhos perante uma trágica notícia e não desejou que ao abri-los o tempo retrocedesse ao momento anterior, à última fortaleza possível. Quem não fechou os seus olhos e, destroçado pela dor, não implorou que a cena se fechasse com esse fundido e, como acontece no cinema, em segundos apenas, passassem os anos com o seu esquecimento na vida das personagens.  


*

 

DESEJOS DE UM PEIXE 

 

 

Não desejo outro aquário nem pedras novas no fundo. Quero aprender a esperar, conhecer a pausada harmonia dos gestos. Fixar os meus olhos sem pálpebras nas coisas e filtrar a luz devagarinho. Nas sombras e no rasto das imagens manchadas, ver o que há mas não vejo: a água onde melhor me movo.  


*

 

AGOSTO 

 

 

Hardy conduzia a mota. Laurel, atrás, olhava a costa. Uma gaivota rasou as suas cabeças e ambos se agacharam à vez. O gordo quando recorda aquele dia fala do perigo que espreitou. O magro do quão brancas eram as asas da gaivota. A máquina fez um par de ziguezagues e recuperou o equilibrio. Alguns ainda se perguntam como podem ser felizes juntos.  

 

*

 

MARCIANOS

 

Apaixonam-me através do computador e vêem a sua casa pelo olho do satélite, bombardeiam galáxias virtuais à base de sistemas binários e falam por telefones sem fios com a colónia mais distante do planeta. Mas na hora da verdade, quando se desligam os processadores, deixam embevecer-se pelas mesmas coisas que os terráqueos. Uma montra iluminada com um aquário cheio de peixes, ou a pomba suja do costume que sai de uma cartola. E não podem resistir à tentação, perante a imensa visão de um lago, de lançar à água uma pedra e contar as vezes que ela salta.  


*

 

METÁFORA DA FELICIDADE

 

Sempre me afigura inquietante uma piscina no inverno. Ver a minha figura na água, submersa num espesso abrigo. No fundo, enferrujado e vazio, o miradouro do socorrista. Aquele que imagino partindo no último dia de verão, desapossado do reino que do alto observava, tão asperamente humano sem o apito ao pescoço, sentindo que setembro vai inundando os seus pulmões, não lhe servindo de nada os seus dotes de salvamento.

 

 

 

Rafael Camarasa

in O Sítio Justo

Prémio Internacional Palavra Ibérica 2008

Tradução de Tiago Nené

 

 

publicado por tiagonene às 16:24
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Tiago Nené

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Tiago Nené, poeta português, editou os livros de poesia: "Versos Nus" em 2007
"Polishop" em 2010
"Relevo Móbil Num Coração de Tempo" em 2012.
Vive em Faro e é advogado.

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