Quinta-feira, 22 de Março de 2012

Poemas de Francis Vaz, poeta espanhol

Em Janeiro de 2009 estive na Trama, em Lisboa, para apresentar o poeta espanhol Francis Vaz e a sua "Antología de Drink River". Publico na íntegra os poemas que traduzi para aquela noite tão especial.

 

 

Procuro um assassino mas ninguém se move

Seguro a garrafa de álcool barato

E nada

Será que me destroem a ilusão

Com impulsos de boa fé

Assim ela respira e não parte o seu porquinho de moedas

O seu bar parece um jardim zoológico com animais

de várias espécies

Escumalha essa palavra que nos iguala

Escumalha de olhos tristes que clamam

O galope de um cavalo nas veias

A emoção daquele que entrega o seu sangue

Um corte tão solitário um corte de amor

Esquecido ao acaso por baixo dessa terra

Que sem reparar nós pisamos

 

Esquecemo-nos do amor

como a morte se esqueceu de mim

a partir do interior

atrás dos vidros

observo a cinza que nos entregam como se fosse céu

e os tímpanos gelados das cornijas

e a sua aparência que é de perigo

de dureza seca

Quanta frieza acumulada!

Por que não postergar a sua gélida máscara

Por que não desejar fazê-la jazer debaixo da terra

Pisoteada pela escumalha de olhos tristes

Que impotentes

Nem chorar eles conseguem.

 

Gemo de raiva pelo seu cruel desdém

E porque sei que chegará ainda que tardio

E me achará sozinho terrivelmente sozinho

Com os olhos cristalizados na noite

Como dois glaciares milenários

Que com a luz de um afecto sincero

Talvez pudessem no entanto descongelar. 

 

*

 

O comerciante vem pelo seu pedaço de carne

Negociada  no seu banco com o construtor

deixa a carteira sobre o balcão

e aperta o nó da sua gravata

a cada olhar meloso da santa rapariga

Paca,  o travesti põe-no nervosíssimo

imagina esses pénis erecto entre rendas e se relambe

Mas o desejo de negócio é mais frutífero

e por aqui não parece rondar gente de bem

e também receia os chibos e os seus boatos

por isso a sua mão é graciosa quase de mago

e debita parábolas sobre o balcão enquanto paga

até segurar o pequeno saco que a miúda

envolve em cupões não premiados

depois fará contas e mais contas

enquanto o construtor ainda o olha com olhos de chibo.

 

Esta noite não haverá conversa banal

Com a senhora que dorme a seu lado

E o comprimido para dormir não fará o seu efeito.

 

 

*

 

Vem dando a mão e distribuindo panfletos

fala-nos de direitos sociais

de honestidade e limpeza moral

o seu sorriso pepsodent brilha e cega

tem carisma e muitos o desejam

outros o injuriam e apelidam-no de Satanás

mas ele pode com todos

e a todos promete

um passaporte para o paraíso se nele votarem

a grande vida!

Ele é um grande exemplo disso

De viver nesse bairro e no palacete com piscina

A sua visita é breve

E depressa pisa com firmeza o asfalto

subindo ao mercedes

Depois saca um lenço e

Conscienciosamente

Limpa as suas mãos

De toda a sociedade.

 

*

 

O travesti de tetas caramelizadas da televisão

Diz que ela não é moderna é futurista

E as suas palavras ressoam como um génesis

Desde o fundo do primeiro plano das suas plataformas

naves inter-espaciais da galáxia friki

Reclama igualdade nos seus direitos

Porque todos desejamos o mesmo - diz

Ainda que muitos homens o neguem

Será que todos nos vestimos de:

“rapaz, põe-me os ovários no céu da boca”

Ou isso gostaria se não representasse

Todos os buracos dos donuts -  mas e o creme?

Quem poria o creme

Se não houvesse cabrões morenos em cuecas

Heróis da espada enxertada na sua garganta.

 

*

 

O escritor pensa compreender as suas personagens

por isso vem aqui como um espectro patético

espectro sem papel em qualquer obra

sempre o acompanha algum livro

Becker ou Kafka por exemplo

E um próprio intitulado de “Louvor de vaidades”

Pede uma cerveja sem álcool

Coloca o seu livro bem à vista

E simula ler o outro

Fingindo com afinco um rosto de erudito

A verdade é que lambe e saboreia visualmente

O cu das putas

as tetas artificiais de Paca, a travesti

o profundo decote da tonta miúda

Nunca haverá no entanto proximidade alguma

o seu status intelectual é arame farpado

que impede o seu passo de chegar às flores do lamaçal

Vai embora amanhã cedo e vai madrugar

tem previsto visitar o deputado

ou o editor ou o vereador da cultura ou…

 

já no seu quarto não lhe custa despir-se

tem muito ensaiado isso de baixar as calças

e antes de adormecer imagina carnes apertadas

enquanto agita com o mão

o seu pénis triste e solitario

em breve dormirá sereno e cómodo

como um grande conquistador.

 

*

 

Todas as manhãs vejo em vocês o orgulho

de se sentirem importantes e imprescindíveis

e não consigo compreender tanto esforço

se a vida não é mais do que hóstia atrás de hóstia

uma sucessão de perdas incontrolável

ante o microscópio. O ser humano

nada pode fazer salvo resignar-se

vocês apartam de mim o caminho porque fedo

a álcool e não domino a linha recta

mas sou parte de vós

e não vos calha mais que aguentar

a minha presença e as minhas palavras

mesmo que vos fodam.

 

Drink River tem duas margens

Aparentemente distintas

E no entanto iguais

Em ambas a luz mostra tudo sem censura

E em ambas a verdade se oculta com mentiras

Mentiras em que acreditamos cegamente

Cegos de convicções e símbolos irreais

E falamos da revolução e do progresso

Confiantes em impor as nossas ordens

E lograr a liderança

Mesmo que seja da asquerosa lixeira

Que edificamos como lugar.

 

Não posso entender tamanha estupidez

por que temos de ser tão importantes?

Desprende-te por fim da perversa fantasia

Que com orgulhosa humildade me mostras

E observa a luz da palavra com esses olhos

Porque olhar - apenas olhar já é o suficiente.

 

*

 

A fotógrafa é uma artista consagrada

pelo menos no mundinho cultural da cidade

vem cá com os seus flashes e o seu ar progressista

retratando marginais e perdidos

e maquilhando-os de provocação ousada

 

já na galeria receberá as autoridades

folgada no decote e com palavras delicadas -

que bonito! ou – que elegante! ou uma

subvenção ou compra de uma obra -

Melhor o breve discurso de apresentação

versará sobre os seus amigos esquecidos

Aqueles que tanto fode

Essa punheteira louca essa cujo objectivo

É somente o de lhes dar a maldita publicidade. 

 

*

 

Barbie não é o seu nome

Mas aqui não importa isso

Estuda economia na universidade

E gosta dos caprichos caros

E de se mover como gente importante

Plena de poder e plena de dinheiro

Nunca entrou aqui e só a pude ver ao longe

E no entanto posso ler o seu desprezo

- Quem vai a saber disto no futuro

Isto é momentáneo

É como a escola -

Assim ela forja o seu carácter de empresária

E melhor inverter o seu corpo

Que endividar-se com o banco

Além disso chegam umas horas por semana

Ela vale muito e sabe-se valorizada

E amanhã ela será a chefe

E não haverá sombra que vacile

debaixo dos seus belos saltos altos.

 

Poemas de Francis Vaz

de "Antología de Drink River"

Tradução de Tiago Nené

 

 

 

 

 

publicado por tiagonene às 18:33
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Tiago Nené

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Tiago Nené, poeta português, editou os livros de poesia: "Versos Nus" em 2007
"Polishop" em 2010
"Relevo Móbil Num Coração de Tempo" em 2012.
Vive em Faro e é advogado.

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